Revista Latina de Comunicación Social 32 – agosto de 2000

Edita: LAboratorio de Tecnologías de la Información y Nuevos Análisis de Comunicación Social
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[junio de 2000]

Termina en Acapulco la guerra fría entre comunicólogos yanquis y mexicanos

(1.063 palabras - 3 páginas)

Dr. José Marques de Melo ©

Cátedra UNESCO - Universidad Metodista de Sao Paulo (Brasil)

jodmelo@usp.br

Acapulco figura no imaginário midiático como símbolo da paz pequeno-burguesa. Descontraídos turistas desfrutam, a cada ano, férias paradisíacas em suas praias. Sob sol abrasador e luares ao som de boleros, as classes médias ali reciclam o astral ou retemperam as energias para enfrentar as agruras de um cotidiano rotineiro.

Mas a capital mexicana da indústria do lazer foi palco de uma batalha não captada na essência pelos radares da imprensa internacional. Ela eclodiu há vinte anos, nos estertores da Guerra Fria. Alongou-se em ritmo telenovelesco. E foi solucionada contingencialmente. Sem lágrimas ou happy end.

Na verdade, esse episódio terminou em 1994, com o NAFTA, tratado assinado pelo Estados Unidos, México e Canadá para formar o mercado comum do Norte das Américas. Porém, o armistício entre seus contendores somente ocorreu na primeira semana de junho deste ano. Acapulco testemunhou o encontro dos comunicólogos anglo-americanos e hispano-americanos. Ao invés do clima hostil de 1980, predominou a cordialidade e a camaradagem.

Cenário e personagens

A protagonista principal dessa guerra surda foi a ICA - International Communication Association. Trata-se de uma das três grandes sociedades científicas que reúnem, nos Estados Unidos, pesquisadores dos fenômenos sociais da comunicação. Enquanto suas co-irmãs - AEJMC e NCA - possuem perfil nacional, a ICA tem procurado assumir uma fisionomia internacionalista. Tanto assim que vem realizando, a cada quatro anos, seus congressos anuais fora do território estadunidense. Alemanha, Israel e Austrália já sediaram esses colóquios comunicacionais.

O Mexico foi a sua primeira incursão além-fronteiras. Mas o saldo mostrou-se negativo. Apesar das precauções tomadas pelo seu coordenador, Everett Rogers, um experiente latin americanist, o contexto histórico desfavorecia o diálogo com os parceiros situados ao sul do Rio Grande.

Vivíamos, então, o esplendor da NOMIC, movimento destinado a construir fluxos informacionais mais equilibrados entre o Norte rico e o Sul empobrecido do globo terrestre. Essa campanha encontrara solo fértil no Mexico. Ali estava exilado um dos membros da Comissão McBride, o diplomata chileno Juan Somavia. Ali também pontificava na mídia o colombiano Gabriel García Márquez, outro membro latino-americano do grupo de notáveis constituído pela UNESCO.

Quando a NOMIC conquista o apoio das lideranças intelectuais de todo o mundo, o governo norte-americano lança sua contra-ofensiva, vetando as resoluções já tomadas e quase inviabilizando a própria UNESCO. Como represália, a recém criada Asociación Mexicana de Investigadores de la Comunicación (AMIC) decidiu boicotar o congresso da ICA, agendando para Acapulco, em 1980. Essa reunião ocorreu com a participação quase exclusiva dos cientistas norte-americanos. Somente uns poucos pesquisadores nacionais - Jorge González e Raúl Fuentes Navarro entre eles - resistiram ao patrulhamento corporavativo.

Auto-crítica

Depois do combate que não se travou em Acapulco, descortinaram-se fatos inusitados no panorama global. A perestroika de Gorbachev desinflou a internacional comunista, culminando com a queda do Muro de Berlim. O abandono das trincheiras da UNESCO pelos soviéticos e os reiterados ataques dos EUA amorteceram a campanha pela NOMIC. Não fosse sua adoção pelas internacionais cristãs, lideradas pela ala progressista da Igreja Católica, e tal movimento estaria condenado a mero referencial bibliográfico.

Os comunicólogos militantes se desmobilizaram ou renegaram o campo, especialmente na América Latina. Entretanto, as lideranças mais consequentes permaneceram fiéis à utopia de uma ordem comunicacional justa e equilibrada entre os povos, conduzindo as novas gerações para desvendar o panorama complexo da nascente sociedade da informação.

No ano passado, fez-se a auto-crítica mexicana sobre os equívocos de 1980. Durante o Encontro de La Trinidad, programado para celebrar os 20 anos da AMIC, Fátima Fernández, fundadora da associação, confessava publicamente: o boicote ao congresso da ICA foi um erro histórico. Reconheceu que a comunidade mexicana das ciências da comunicação não soubera discernir entre o governo dos EUA e sua sociedade civil. Redimia-se assim de uma culpa coletiva, que certamente contribuiu para animar os atuais dirigentes da ICA a escolher Acapulco como cenário comemorativo dos 50 anos de fundação da sociedade.

Reconciliação

O reencontro foi amplamente anunciado e negociado. A ICA designou mediadores ungidos pela confiança dos dois lados. Dentre eles o brazilianist Joseph Straubhaar, que organizou uma pré-conferência, inteiramente dedicada a temas culturais e objetos midiáticos da América Latina. Destacaram-se também os mexicanos Carmen Gómez Mont e José Carlos Lozano, cujas andanças pelos territórios acadêmicos da América do Norte e da Europa os credenciavam para coordenar painéis sobre a comunicologia mexicana. Tais iniciativas pretendiam mostrar aos visitantes do Norte os avanços teóricos e metodológicos dos pesquisadores do Sul, evidenciando ao mesmo tempo a pujança da Escola Latino-Americana de Comunicação.

Contudo, a reconciliação entre os antagonistas de outrora deu-se nas sessões temáticas especialmente organizadas para debater o estatuto epistemológico das ciências da comunicação no limiar do novo século. Pela primeira vez, a ICA renunciou ao monópolio da língua inglesa e providenciou tradução simultânea para o espanhol, permitindo que cada interlocutor se expressasse no idioma em que se sentia mais confortável. Desta maneira, ampliou a participação local, estimulando a inscrição de jovens professores e estudantes mexicanos que não dominam o idioma anglo-americano.

Internacionalização

Não obstante a ICA seja nominalmente internacional, na realidade seu corpo de sócios é formado por uma maioria esmagadora de cientistas que nasceram, vivem e trabalham nos EUA.

Para simbolizar o compromisso da internacionalização, a entidade decidiu realizar, com maior frequência, congressos fora dos EUA. Tanto assim que após o de Washington (2001) virá o de Seul/Coréia do Sul (2002). Além disso, aprovou a ampliação da sua diretoria para incluir 5 representantes dos sócios residentes em todos os continentes: Europa, Ásia, África, América Latina e Oceania.

Se ela deseja efetivamente internacionalizar-se, isso não significa que pretenda assumir a hegemonia mundial no campo. Para tornar clara sua opção pluralista, coexistindo e cooperando com as outras associações mundiais existentes na arena comunicacional, a ICA vem procurando estreitar relações com a congênere IAMCR - International Associaton for Media and Communication Research. A história dessa entidade está mais associada às tradições científicas européias, influenciadas pelo pensamento de esquerda. As duas associações estão planejando uma conferência conjunta, em outubro do próximo ano, no campus da Universidade do Texas (EUA) para debater a exclusão digital. Se ela vingar, teremos a expressão incontestável de que terminou a guerra fria no campo acadêmico da comunicação.

Nota: Os interessados na programação completa da 50a. Conferência da ICA podem consultar na internet o site: www.icahdq.org

São Paulo, Brasil / 10 de junho de 2000.


FORMA DE CITAR ESTE TRABAJO EN BIBLIOGRAFÍAS:

Marques de Melo, José (2000): Termina en Acapulco la guerra fría entre comunicólogos yanquis y mexicanos. Revista Latina de Comunicación Social, 32. Recuperado el x de xxxx de 200x de:
http://www.ull.es/publicaciones/latina/aa2000kjl/y32ag/
66melo.htm